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sábado, 2 de abril de 2016

Abril #29

          Hoje não te consigo escrever. O corpo não deixa muito mais do que permanecer no mesmo lugar onde estou. O mundo parou e as palavras esmoreceram. Não te consigo escrever. Mas é Primavera, e deixar o corpo no Inverno é congelar a alma no antigo. 

         Peguei, então, num retrato teu, gasto pelas minhas mãos nele, e levei-o ao coração. Inspirei toda a força que me resta para permanecer nesta nossa distância. Inspirei, profundamente. E numa folha em branco despejei toda a saudade que acumulei durante estes longos dias de frio. Não em palavras, que já não tas sei dizer. Não em palavras, que já tas mandei, pelo vento, vezes de mais. Desenhei-te. Simplesmente. Traço a traço, como se tocasse no teu rosto. Conheço toda a tua fisionomia, a minha mão já desliza em papel plano desenhando cada curva do teu rosto. Foi o melhor desenho que já vi, olhavas fixamente para mim, como eu queria. E olharás, infinitamente, nesta imagem que és tu e que resultou de mim. Estou feliz.

Alexandra Oliveira Villar

terça-feira, 1 de março de 2016

Março #28

Hoje foi o último dia deste pôr-do-sol. Ainda atravessei a ponte para roubar a luz e levá-la comigo. Queria apresentá-la ao mundo, mostrar ao mundo o meu refúgio da alma. Infrutiferamente. Voltei e fui sentar-me a ouvir a música da cidade. Contemplativamente. Beber de cada uma das palavras dos seus poetas. Os poetas são seus, e ela é a própria música. Dela guardo duas palavras que carregarei cada vez que a pronunciar: luz e música.

E a despedida não é nada quando de ti levo uma parte, agora, parte integrante de mim. Talvez um dia volte e, talvez, encontre as mesmas ruelas em que, sob o luar da noite, me perdia. Queira Deus que um dia ainda seja a mesma cidade. Com a mesma luz e com a mesma música.

Levo em mim um pouco da minha cidade. Espalhá-la-ei pelo mundo. E, em breve, o mundo será a minha cidade.


Alexandra Oliveira Villar

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fevereiro #27

Hoje não é o dia. A cidade não acordou virada para o mar. As gaivotas não acordaram as areias da praia. E o vento tristemente não baila nas árvores. Hoje a cidade acordou num impulso matutino, abeirou-se da varanda, ia abrir os pulmões à luz do novo dia mas as ruas estavam diferentes. A luz que se queria entranhar pelo seu corpo não era a luz branca que percorreu calçadas e ruelas na história deste povo. Não se ouvia o pulsar dos coraçoes num novo dia que começa. A cidade tinha-se transfigurado. Era já outra coisa em que não se reconhecia. Fechou os olhos, susteu a respiraçao e voltou a fechar-se em casa. A cidade queria manter a própria cidade que desde sempre conheceu no coraçao, e não impregnar desta nova substância. Ela era pura e via-se em estado contaminado fora da janela. Cada cidade tem o seu lugar neste mundo, esse contexto pertence-lhe e será sempre o único a dar-lhe existência. Uma cidade noutro lugar nunca será cidade, ou melhor, será uma cidade sem alma. Hoje não é o dia. Mas amanhã pode já nem sequer haver luz. E quem diz cidade, diz o homem.

Alexandra Oliveira Villar

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Janeiro #26

Existem dois vazios nas almas. E um imenso abismo entre eles. Um é quente; o outro gélido, petrificante, vazio absoluto. Um vem nos filmes; o outro não cabe neles.

Vazio que transborda de plenitude de silêncio, conforto, sonho. Este, vi-o no fim de semana enquanto entretinha a vida nas pausas do viver. Vi-o sentada no sofá de casa ao mesmo tempo que ele acontecia no extremo oposto do globo. Vi-o e deu-me alegria. Foi o atingir do cume mais alto onde reinava silêncio, plenitude, comunhão de elementos. Entra na alma quando se enche o peito de brisas não citadinas. Era o vazio, aquele que aquecia o coração.

No fim da tarde, veio o vazio absoluto. O Outono. O dia em que a andorinha partiu rumo a sul, deixando o beiral gelado, triste, abandonado. O ninho vazio. Nesta viagem sem retorno, levou consigo a razão. Restou a dúvida, a solidão. O centro do mundo caiu naquele coração, instalou-se e aconchegou-se para intensificar o frio. A andorinha continua rumo a sul, a sua bússola já só tem uma direcção, e o centro do mundo ficou cá. Era o vazio, aquele que doía no coração.
Alexandra Oliveira Villar

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Dezembro #25

Vagueio hoje por outras terras. O meu corpo percorre o que me é estranho. E eu estou desconfortável. Sou desconforto e só quero pôr um ponto final ao universo. Não gosto do incontrolável, do desconhecido. Não conheço sequer a minha pele, é fria, cheira a estranho. Não sou eu. Todo o espírito, porventura, ter-me-á abandonado? Ao estar aqui já não sei o que sou, se alguma vez o soube. Desejo voltar a contorcer-me sobre o meu corpo e entrar de volta no ventre de minha mãe, até ao infinito, porque impossível será morrer quem se negou ao nascer.

Repudio o sol que brilha lá fora, da luz se renasce dizem uns, e eu discordo pela brancura inoportuna que invade este meu quarto pela frincha da janela deixada irresponsavelmente aberta. Mas eu hoje só quero dormir, o sono impede-me de pensar, e esperar que acorde, de novo, envolta em líquido amniótico.
Alexandra Oliveira Villar

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Novembro #24

Os teus olhos são fugidios, são os olhos de um gato. Em cada olhar não demoras senão frações de vida, para que o pensamento não aprofunde. São daqueles que em cada olhar espelham a alma de quem os olham. São duros para mim. Encerram em si o mistério da existência. Olhas o mundo porque ele não te questiona. É mais fácil olhar o mundo que a própria alma. E eu em ti só vejo a minha alma. É o que me dás. Sabor amargo do amor. Não me trazes a tranquilidade porque sabes que a vida é vã. Conheces a inutilidade da labuta, o previsível fim de tudo. Resignas-te ao menos que nada que somos. Porque mesmo a reis tudo acaba. Por mais que vivas tudo acaba. E no fim, além de memórias nada levas. Os teus olhos vivem de memórias. Das memórias da minha alma.

Alexandra Oliveira Villar

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Outubro #23

Recolho-me em mim como se voltasse à casa que me viu nascer. É como sair deste mundo para regressar à vitalidade da própria vida. Voltar a ser o que já fui sem me lembrar de o ter sido. A inocência da ignorância. A força do futuro por ser.
Recolho-me em mim como se voltasse ao calor do ventre da minha mãe. O berço mais profundo da existência. A casa. O mar. Voltar a ser o primórdio da espécie, rasurando os caminhos rectos que percorri, que é em tortuosidade que o mundo cresce.
Recolho-me em mim para voltar a ser a potencialidade do sonho que não se concretizou ainda. É na origem que o sonho ganha raiz e dá razão à existência. Viver é perder a razão. Será sempre o perder do sonho.
Recolho-me em mim como se negasse o presente que me atormenta. Eu sou passado quando sou verdade, mas vivo cada dia num presente inconsistente. O passado é feito de sonho, o presente segura-se no vazio.

Recolher-me-ei sempre em mim enquanto não o souber viver.

Alexandra Oliveira Villar

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Setembro #22

Já dormes. É tarde, o relógio já se cansou da nossa eternidade, lá fora habita uma bruma fria e tu já entraste num sono profundo. Deitada neste nosso ninho branco respiras pausadamente sem incerteza nenhuma. Lado a lado como profundos amantes. Lado a lado como na vida. Eu olho-te e fico a amar-te intensa e indefinidamente. Deliciosamente. És para mim o átomo que acerta, a poesia que canta, o sonho que desperta. Aqui ao teu lado, teço um futuro verde de sonhos a partir de um novelo de esperança. Que ele nunca acabe, que eu construirei sempre sonhos sobre sonhos. 

E uma última coisa, avisa o destino de que vamos morrer juntos. Não haverá voltas nem contragolpes que façam com que seja de outra maneira! Asseguro-te que morreremos abraçados, tal como passámos toda a nossa vida. É assim e será assim porque nada neste mundo poderá fazer com que seja de outra forma. 

Já agora, boa noite. Descansa.
Alexandra Oliveira Villar

sábado, 1 de agosto de 2015

Agosto #21

Bom dia, digo. Nem o silêncio me responde. Estou só, claramente só, sonhando.

O Outono deste dia envolve-me e eu dissolvo-me nele a sonhar. De ti, Em ti. Percorrendo o meu corpo, amor, com a tua ternura. Moldando a brisa para te sentir a envolver o meu corpo. Sonho nos ribeiros da vida, perco-me em cada margem, levo-me pela corrente, sem norte nem sorte, sonhando somente. No impasse deste tempo perco-me. E gosto. Divago, sonho, desfiguro-me, solto-me. E anseio voltar a uma realidade diferente da que deixei. Onde serás presente. Hoje ainda futuro, embora pouco longínquo anseio.

Se me falha este sonho, desvaneço eternamente. Fica, permanece, como outrora. Suplico-te de mãos postas.

Bom dia, respondias tu. Responderás, um dia.
Alexandra Oliveira Villar

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Julho #20

Esta é a noite que eu tanto temia. Anoiteceu em breu cedo demais e não há no barulho das ruas a mais ínfima esperança no amanhecer. São todos vultos negros calados. Todos mudos. Deambulam uns entre os outros numa massa amorfa desprezível. Cada um é tão noite quanto eu desejo não ser. Emanam dos corpos um cheiro medonho a cobardia. Repetem todos incessantemente as mesmas palavras. Aquelas que lhes ensinaram.

Por dentro da janela vejo este horror. E escrevo, o mesmo horror. Não entendo o significado que as palavras ditas pela minha boca insana possam ter. Escrevo para não morrer sufocada, ciente de que de nada vale gastar palavras entre mudos. O meu corpo arde em febre, transpira em suores arrepiantes, a doença instalou-se. As palavras já deliram mais que o próprio pensamento. Talvez nunca tenha escrito tão lucidamente, afinal a doença tomou conta de mim. E ela dói-me, mas eu prefiro esta doença à doença do meu país!
Alexandra Oliveira Villar

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Junho #19

                Chamava-se Maria. E nos olhos trazia o mar. Azuis, límpidos e serenos. Era a tranquilidade de um fim de dia sereno, frente a um pôr-do-sol resplandecente. Miradouro da cidade do meu coração. Eram os olhos de criança que brilhavam como sol de inverno. Frio mas reconfortante. Chamava-se Maria. E no coração trazia a maresia. Fresca, melancólica e pulsante. Era força que brotava de grandes ondas, nascia do ventre do mar como certeza inolvidável. Era mulher que bailava ao vento movida pela força do amor. Chamava-se Maria. E nos braços trazia asas. Longas, abertas e aconchegantes. Planava na vida serena e tranquilamente. Desfrutava de cada vento, fazia dele força motriz para o seu corpo. Chamava-se Maria. E era força em cada retalho do seu corpo.

                Hoje, não conheço esta Maria no país por onde vagueio mas desejo intensamente sê-la, ser mar, maresia, asas. Cada Maria em cada parte de mim. Olho brilhante e coração aberto.

Alexandra Oliveira Villar

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Maio #18

Se um dia me perguntares se sou gaivota eu não to negarei. Mas tu nunca o saberás. Nunca me verás nos braços asas para voar, nunca terei corpo para planar sobre o vento. E isso tu sabes e saberás. Mas se me perguntares se sou gaivota não to negarei. Mas tu nunca o saberás. Talvez não me conheças. Não sabes em mim aquele brilho marítimo que trago no olhar, nunca me olhaste profundamente nos meus olhos para o saber. Não os sabes. Não os conheces. Não me conheces. Não sabes em mim o meu coração pulsante, nunca te bateu no peito e incitou a voar. Não o conheces. Não me conheces.

Esta é a mais bela das trovas de amor que te posso dar. Dizer que não me conheces, que não me sabes. Que todos os dias percorres o meu corpo inebriado pelo nosso calor sem nunca me conheceres. Mas nunca te negarei se um dia me perguntares se sou gaivota. Sou. Por dentro, por onde não me conheces. Por onde quero realmente que me saibas.
Alexandra Oliveira Villar

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Abril #17

Intensamente.
Intensamente.
No limite do absurdo nada existe. E no entretanto existes tu.
Hoje abeirei-me de uma mesa alta, estava sozinha no mundo, tinha de escrever. Lá fora era Primavera embora eu preferisse que fosse Outono, era-me mais familiar àquela ocasião. Entre tragos de café quente enlouquecia. E na loucura, como sabes, nada existe, assim como no limite do absurdo nada existe. Escrevia palavras desconexas, e pensava no ridículo da situação. Diziam-me escritora pela habilidade humana de com o membro que, por constituição, se designou de mão empunhar um objecto que, pela mesma constituição, se elaborou e se chamou de caneta depositar pedaços de tinta alinhados (note-se este adjectivo só ter relativo valor dentro do paradigma desta mesma ridícula constituição) sobre uma folha de papel. E por isso era escritora. E por tantas outras ridículas coisas era outras tantas ridículas almas, sendo sumariamente eu. E o ridículo da situação a assolar-me. No absurdo chegava a ser astronauta quando, por impulso de liberdade, saltava e tirava os pés do chão habitando, por meras fracções de segundo, o espaço. No limite do absurdo sou tudo. E sendo tudo serei plena. Plena tanto de tudo como de vazio. De nada. E o ridículo da situação a assolar-me. No absurdo do limite nada existe, por tudo existir em plenitude. E no entretanto existes tu. Intensamente. Intensamente.
Alexandra Oliveira Villar

domingo, 1 de março de 2015

Março #16

Na Primavera eu venho. Prometo. Prometo-te. Na Primavera eu venho para te beijar esses lábios de maresia. Prometo. Prometo-te. No raiar dessa madrugada, ver-me-ás de regresso envolta nos ares refrescantes de uma nova estação. Estarei cá, prometo, nessa manhã. Eu venho e deitar-me-ei aqui como quando nasci. Serei a mesma de sempre, com mais Primavera. Comigo.

Voltarei com as andorinhas, no regresso da Primavera, para habitar estas terras salgadas. Serei, de novo, vento do norte em searas loucas. Seremos caminho, estações, lições, amores. Serei eu Primavera, se o quiseres.

Mas hoje não. Agora irei para longe, para onde hoje for Primavera. Noutras terras, noutros mundos, noutros paradigmas. Preciso, como de água para beber, de respirar. Irei com as andorinhas habitar terras sem sabor a sal, onde agora é Primavera. Agora, irei para mim própria já que esta terra salgada é Inverno. Com as andorinhas. Prometo. Prometo-te.
Alexandra Oliveira Villar

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fevereiro #15

Olha para o mar, amor! Não vês como ele nos chama? Não sentes os seus braços a envolverem-nos cuidadosamente? Diz-me, sinceramente, não os sentes? Talvez sejam só delírios da minha imaginação mas jurar-te-ia, aqui e agora, que ele nos quer como pertença sua. Ouve este rugido de lamento, o tempo urge para nós. Sentemo-nos abraçados na rebentação, fundamos os nossos corpos e amemo-nos. Amemo-nos loucamente como as ondas na rebentação aos nossos pés. Infinitamente. Plenamente. Amor.

Vem comigo! Afundemo-nos e mergulhemos, são corais de mil cores luzentes à nossa espera. Daria toda a minha vida para que sentisses, por um só momento neste mundo, a meu lado, o amor com que o mar nos envolve, com que eu te cuido. Far-me-ia mar para ti. E levar-te-ia nas rotas das marés a descobrires os ares de outros ventos. Vem comigo, gaivota! É ao mar que pertencemos. Nada é nosso nesta terra estrangeira, línguas estranhas, corações mecanizados. Vem comigo, gaivota. Vem comigo voar.

Alexandra Oliveira Villar

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Janeiro #14

Nestas tardes luminosas de Inverno em que te espero, cada poente transparente lembra em mim as pérolas que embalam as ondas das marés. E nelas vejo todo o fulgor dum futuro que há-de ser nosso, em que será pleno e perfeito cada instante. Mas o vento amargo do passado traz em si todo o desconsolo das horas das nossas eternas esperas. Nele vivo toda a ansiedade do futuro. Nele duvido da minha existência. Nele sei que és tu a Primavera que eu espero.

Na doçura amarga dessas noites em que bailamos a multiplicação das esperas da nossa entrega guardo em mim todo o resplendor das palavras és tu a Primavera que eu espero. É nessa Primavera que renasceremos e como prometidos amantes viveremos a exaltação de todas as esperas.

 O vento bailador das Primaveras trouxe em si cada pedaço dos teus olhos, cada pérola que me embala nas marés. O luar das noites transparentes é leito onde nos deitamos e nos fazemos nossos como se prendêssemos entre os dedos cada pétala de rosa deste amor. E quando há noite te beijo os olhos tenho a certeza em mim que és tu a Primavera que eu esperava.
Alexandra Oliveira Villar

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dezembro #13

                Meu amor, estas palavras não são uma carta. São um pensamento, e são só minhas. São a minha entrega, em morte, a ti. Porque em morte valho mais que em vida.

            Vivo nesta cidade igual a mim. Observa. Hoje ela é corrompida nas entranhas por uma ventania fria do norte. O vento é-lhe estranho e desconfortável. Ela estremece. A vontade cede. As ruas despiram-se e somem-se em direcção ao rio que hoje é mar de morte revolta. Ele fá-la recolher-se ao abrigo de sempre, à zona de conforto. Deixou de repente de viver. As fachadas pombalinas são agora sepulturas de almas geladas. Vagueio e nada vejo a não ser o vento que matou as pessoas friamente. A cidade morreu. Também eu me recolho em mim. Digo, recolho-me na minha tristeza. E talvez também vá morrer.

            Um dia, ao percorrerem as minhas veias, elas serão tão nuas como as ruas da minha cidade. Serei tão morta como ela. O resto são as palavras que depois voarão em papéis ao sabor da ventania fria do norte escritas por uma qualquer vagabunda sentada a uma janela estupidamente aberta à tempestade.

Alexandra Oliveira Villar

sábado, 1 de novembro de 2014

Novembro #12

É um dia triste. Chove torrencialmente há bastantes horas. Suficientes para me fazerem a mim chorar. Choro por ver chuva a cair, cai agora dos meus olhos. Encosto o rosto ao vidro e entranho aquele frio que me inverna, a desolação invade-me a cara, congela-me o pensamento.
As ruas são tempestades da minha falta de vontade, sopram contra folhas de inverno de poemas pouco afortunados. Talvez seja eu o poeta de tais palavras miseráveis. Talvez… Abandono o calor desta vida e entrego-me em alma a este ambiente tão pouco diferente da tempestade que me consome. O vento traz as gotas de água na minha direcção, e o que mais anseio é que me toquem a boca. Estou despida no meio da rua entregando o corpo à chuva. Estendo os braços e entro em rodopio com o vento. Rodo livremente, à chuva. Rodo e rodopio. Espero que a água que me crava o corpo hoje faça nascer vontade em mim.
Aguento. Resisto. Sozinha. Cerro o punho, mordo o lábio para fazer da dor, força. Resisto mais um dia. Aguento outro. Cerrando o punho e mordendo o lábio. São assim os meus dias, tristes como esta tempestade. E a minha alma está parecida a este dia…


Alexandra Oliveira Villar

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Outubro #11

Olho fixamente pela janela de casa para algo que desconheço e sei infinitamente distante. Fito a paisagem fundindo o meu corpo a cada árvore enraizada na planície que contemplo. Corre dentro de mim ar fresco das lezírias e eu entrego-me plenamente à naturalidade do belo. De repente atravessa-me o pensamento folhas de um Outono no qual não tinha reparado. Estas folhas trazem nelas escritas todo o meu ser, e fazem-me à força relembrar momentos atirados ao esquecimento. Todo o meu corpo estremece com a fulminante certeza da passagem do tempo. Andamos tão embebidos com o ciclo rotativo dos dias que perdemos a corrida fulgurante da vida. De repente é Outono e eu não o sabia. De repente será o fim e eu não o saberei. E no entretanto vivemos. Fomos grandes, criámos mundos e movemos vontades e, no fundo, fomos tão pouco, sempre ludibriados por o que não sabíamos poder ter sido se o quiséssemos. Mas não o fomos e hoje é Outono.

Alexandra Oliveira Villar

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Setembro #10

Olho para o meu lado. Vejo homens deliciados a viverem cada momento entorpecidos pelo ruído ensurdecedor da poeira dos dias. A luz pouco trespassa nessa sufocante rotina mas os olhos são enganosamente iluminados pela recusa de se entregarem à labuta de viverem. E no dia que o pó acalmar as forças já terminaram, o homem sucumbe, morre e nunca viveu.

                Mas sabemos que do ciclo natural das coisas não nascem flores nem estrelas. É quando o mundo rodopia num baile desenfreado que crescem vales e montanhas, nasce o sol, eclipsa-se a lua, formam-se doutores, vivem-se cidades, cava-se terra, lançam-se redes, nascem e fazem-se filhos. É no extraordinário que a vida acontece. E é no extraordinário que devemos fazer correr a nossa vida, a ritmo acelerado para nada deixar escapar por entre poeiras repressivas. Toda a engrenagem está agora montada. O ritmo acelerou. A vida já nasceu.

 Alexandra Oliveira Villar