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domingo, 22 de novembro de 2015

Página-a-página #220

«NOBREZA SILÊNCIOSA. É um erro acreditar que os momentos decisivos de uma vida, nos quais a sua direcção habitual se altera para sempre, têm forçosamente que ser de um dramatismo ruidoso e lancinante, agitado por violentas pulsões interiores. Isso não passa de uma ilusão kirsch, de historietas inventadas por jornalistas ébrios, realizadores sensacionalistas e escritores em cujas cabeças circulam as fartas tramas dos pasquins. Na verdade,o dramatismo de uma experiência decisiva é, não raras vezes, inacreditavelmente silêncioso. E tão poucas afinidades ela tem com o estrondo, a labareda e a erupção vulcância que, na maior parte das vezes, ela nem sequer é apercebida no momento em que é efectuada. Quando mais tarde liberta o seu efeito revolucionário, fazendo com que a vida seja vista sob uma luz completamente diferente e ganhando como que uma melodia própria e absolutamente original, então isso acontece silenciosamente, e a sua nobreza específica consiste precisamente nesse espantoso silêncio.»

Comboio nocturno para Lisboa
Pascal Mercier

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Página-a-página #219

«PALAVRAS NUM SILÊNCIO DE OURO. Quando leio o jornal, ouço rádio ou presto atenção ao que as pessoas me dizem no café sinto, cada vez com mais frequencia, tédio, para não dizer uma náusea, perante sempre o mesmo chorrilho de palavras iguais, escritas e ditas- sempre as mesmas expressões retóricas, sempre os mesmos floreados e metáforas. E o pior é quando me escuto a mim próprio e tenho de constactar que também eu me limito a alinhar sempre pelos mesmos padrões, Como estas palavras estão gastas e usadas, tão esgotadas pela excessiva utilização! Será que haverá ainda nelas o vestígio de um significado residual? É claro, a troca de palavras continua a funcionar, as pessoas agem de acordo com isso, riem e choram, viram para a esquerda e para a direita, o empregado de mesa trás o café ou o chá. Mas não é isso que eu quero questionar. A questão é: será que elas exprimem ainda algum pensamento? Ou serão apenas construções sonoras que impelem as pessoas de um lado para o outro, só porque iluminam constantemente, na mente de cada um, vestígios de uma eterna tagarelice?»


Comboio nocturno para Lisboa
Pascal Mercier

sábado, 14 de novembro de 2015

Página-a-página #218

«PROFUNDEZAS INCERTAS. Será que existe um segredo sob a superfície da actividade humana? Ou serão as pessoas tal e qual como se manifestam nos seus actos tão explícitos? 
Pode parecer estranho, mas para mim a resposta muda com a luz que cai sobre a cidade e o Tejo. Se for a luz mágica de um dia vibrante de Agosto, capaz de produzir sombras claras de um recorte nítido, a ideia de uma profundidade humana subjacente e oculta parece-me estranha como um fantasma curioso e, de algum modo eternecedor, qualquer coisa como uma miragem que se materializa quando me ponho a olhar longa e fixamente as ondas que cintilam nessa mesma luz. Se, pelo contrário, a cidade e o rio surgirem iluminados por uma cúpula de luz difusa e acinzentada num dia turvo de Janeiro, então não conheço maior certeza do que esta: a de que toda a actividade humana não passa de uma manifestação incompleta, para não dizer ridiculamente incipiente, de uma vida interior oculta e de uma profundidade imprevista, que assoma à superfície sem jamais, em momento algum, a alcançar.
(...)»
Comboio nocturno para Lisboa
Pascal Mercier

domingo, 8 de novembro de 2015

Página-a-página #217

«De mil experiências que fazemos apenas conseguimos transpor uma para a linguagem, e mesmo essa de uma forma fortuita e sem o apuro que merecia. Entre todas as experiências mudas, permanecem invariavelmente ocultas aquelas que, imperceptivelmente, transmitem à nossa vida a sua forma, o seu colorido e a sua melodia. Quando depois nos viramos para esses tesouros, como uma espécie de arqueólogos da alma, descobrimos quão desconcertantes eles são. O objecto da observação recusa a imobilidade, as palavras deslizam para fora da vivência e no final o que temos no papel não passa de um espólio de contradições. Durante muito tempo acreditei que isso era um defeito, uma carência que precisava de serultrapassada. Hoje penso que as coisas não se passam assim: que o reconhecimento de tamanho desconcerto acaba por ser a via régia para a compreensão dessas experiências, simultaneamente íntimas e, não obstante, tão enigmáticas. Eu bem sei, tudo isto pode parecer estranho, até mesmo extravagante. Mas desde que vejo as coisas assim tenho a sensação de que, pela primeira vez, encaro a vida de uma forma atenta e lúcida.»
Comboio nocturno para Lisboa
Pascal Mercier

terça-feira, 16 de abril de 2013

Uma boa história nunca acaba #37



«To live for the moment: it sounds so right and so beautiful. 
But the more I want to, the less I understand what it means.»

«We leave something of ourselves behind when we leave a place, we stay there, even though we go away. And there are things in us that we can find again only by going back there.»

Night train to Lisbon (2013). Drama. Pascal Mercier. Jeremy Irons. Mélanie Laurent. Jack Huston. Um filme excepcional! Filmagens em Lisboa, Fernando Pessoa, poesia, amor, citações, grandes actores, uma história cheia de pequenas histórias,... Aconselha-se!

domingo, 7 de abril de 2013

Página-a-página #38


“A nossa imagem exterior não surge aos outros como aos nossos próprios olhos. Não vemos as pessoas como vemos casas, árvores ou estrelas. Vemo-las na expectativa de as encontrarmos de uma determinada maneira, transformando-as, assim, em um pedaço da própria interioridade. A força da imaginação forma-as de maneira que estejam de acordo com os próprios desejos e as próprias esperanças, mas também de modo a que nelas se confirmem os nossos próprios temores e preconceitos. Na verdade, nem sequer alcançamos os contornos exteriores do outro de maneira segura e imparcial. Ao longo do percurso, o olhar é desviado e turvado por todos os desejos e fantasias que fazem de nós a pessoa especial e insubstituível que somos.”

Pascal Mercier
Comboio nocturno para Lisboa