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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Página-a-página #52


«Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser, que não estarão em oposição às leis governamentais se ele tiver a sorte de se defrontar com um governo justo.»

«...se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer em redor ou dentro dela; ou então as leis velhas hão-de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há-de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-se parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.»
Conclusão
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Página-a-página #51


«O dia é um resumo do ano. A noite é o Inverno, a manhã e a tarde são a Primavera e o Outono, e o meio-dia é o Verão.»

«Que é o homem senão um aglomerado de barro a derreter-se? A ponta do seu dedo não passa de uma gora congelada.»

«Seriamos abençoados se vivêssemos sempre no presente e lucrássemos com tudo o que nos acontece, como a relva que reconhece a influência do mais leve orvalho que a molha; se não desperdiçássemos o nosso tempo expiando pela perda de oportunidades passadas, julgando cumprir o nosso dever. Demoramo-nos no Inverno quando já é Primavera. Numa agradável manhã primaveril todos os pecados dos homens são perdoados. Um dia como este é uma trégua no vício. Enquanto continuar a arder um sol como este, pecador mais vil pode voltar atrás.»

«A compaixão é uma base pouco sustentável. Deve ser rápida. As suas suplicas não suportam ser esterreotipadas.»
Primavera
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Página-a-página #50


«A natureza não põe nenhuma questão, nem sequer responde ao que nós mortais perguntamos.»

«Em suma, a imaginação, dando-se-lhe corda, mergulha mais fundo e eleva-se mais alto do que a própria Natureza.»

«Até agora conhecemos somente umas poucas leis e o resultado que obtemos vê-se invalidade, naturalmente não por qualquer desordem ou irregularidade da Natureza, mas pela nossa ignorância dos elementos essenciais para o cálculo. As nossas noções de lei e harmonia costumam estar confinadas aos exemplos que percebemos; mas a harmonia que decorre de um número muito maior de leis, aparentemente incompatíveis mas na realidade concorrentes, e que ainda não descobrimos, é ainda mais maravilhosa. As leis particulares são como os nossos pontos de vista, como para um viajante o contorno de uma montanha, que a cada passo varia, apresentando um número infindo de perfis embora a sua forma seja uma só. Mesmo que fendêssemos e perfurássemos a montanha não a abrangeríamos na sua totalidade.»

O lago no inverno
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Página-a-página #49


«A repugnância perante a comida animal não resulta da experiência, decorre do instinto. Parecia-me mais belo viver com humildade, passando mal em muitos aspectos.»

«As frutas, comidas com moderação, não nos envergonham pelo nosso apetite nem interrompem as nossas actividades mais dignas. (...) Muitos homens sentir-se-iam desonrados se fossem surpreendidos a preparar com as próprias mãos uma refeição, de comida animal ou vegetal, como a que diariamente outros lhes preparam.»

«...estou convicto de que faz parte do destino da raça humana, no seu progresso gradual, abandonar o hábito de comer animais.»

«Não é a comida que entra na boca de um homem que o envelhece, é o apetite com que ele come.»

«Toda a nossa vida é surpreendentemente moral. Não há um só instante de tréguas entre a virtude e o vicio. A bondade é o único investimento que nunca falha. Na música da harpa que vibra em redor do mundo, é a insistência nisso que o comove.»

«Se pretendeis ser casto, deveis ser moderado. O que é a castidade? Como saberá um homem se é casto? Não o saberá. Temos ouvido falar dessa virtude, mas não sabemos do que se trata. Falamos conforme os boatos que ouvimos. Do exercício vem a sabedoria e a pureza; da preguiça, a ignorância e a sensualidade. No estudante, a sensualidade é um hábito preguiçoso da mente. Uma pessoa imunda é geralmente preguiçosa, senta-se ao lado do fogão, prostra-se a apanhar sol, descansa sem estar cansada. Se pretendeis evitar a depravação, trabalhai seriamente, mesmo que seja limpando um estábulo. A natureza é difícil de ser dominada, mas deve ser dominada. De que adianta serdes cristãos se não sois mais puros que pagãos, se não vos sacrificais, se já não sois religiosos?»

«Todo o homem é o construtor de um templo, que é o seu corpo, para o deus a que adora; e segue um estilo puramente seu, não podendo desincumbir-se martelando, em vez de si mesmo, o mármore. Somos todos escultores e pintores, e o material é a nossa própria carne, seu sangue e ossos. Qualquer nobreza começa logo a refinar as feições de um homem, qualquer mesquinharia ou sensualidade a embrutecê-las.»

Leis superiores
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

Página-a-página #48


«Um lago é o traço mais belo e expressivo da paisagem. É o olho da terra, e mirando-se nele o ser que se contempla mede a profundidade da sua própria natureza.»

«Como são mais belos que as nossas vidas! Como são mais transparentes que os nossos caracteres! Nunca aprendemos mesquinharias com eles. Como são mais formosos que o açude onde nadam os patos defronte da porta do fazendeiro! Para cá vêm os imaculados patos selvagens. Não há habitante humano que aprecie a Natureza! Os pássaros, com as suas plumagens e cantos, estão em harmonia com as flores, mas quando o rapaz ou rapariga se associa à beleza selvagem e luxuriante da Natureza? Ela floresce sobretudo sozinha, bem longe das cidades onde moram os homens. Falais do céu, vós que degradais a terra!»
Os lagos
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

Página-a-página #47


«Nunca deveríamos fazer cerimónias com a sinceridade. Nunca nos enganaríamos, insultaríamos e enxotaríamos uns aos outros por conta de mesquinharias, se o núcleo da dignidade e amizade estivesse presente.»
A plantação de feijões

É uma experiência surpreendente e inesquecível, além de valiosa, essa de uma pessoa se perder nos bosques.

«... e só quando estamos completamente perdidos, ou quando damos a volta em torno - pois neste mundo basta o homem dar de olhos fechados uma volta em torno para se perder - é que apreciamos a vastidão e singularidade da Natureza. Sempre que de novo acorde, seja do sono ou de alguma abstracção, o homem tem de voltar a aprender os pontos cardeais. A não ser quando nos perdemos, ou melhor, quando perdemos o mundo, é que começamos a descobrir-nos, percebendo onde estamos e o infinito alcance das nossas relações.»
O povoado
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

Página-a-página #46


«Entretanto, descobri por experiência própria que algumas vezes a companhia mais doce e terna, a mais inocente e animadora, pode encontrar-se em qualquer objecto natural, mesmo pelo pobre misantropo e o mais melancólico dos homens. Não pode haver melancolia muito negra para quem vive em plena Natureza e mantém os sentidos serenos.»

«O mundo inteiro que habitamos não é mais do que um ponto no espaço. A que distância acreditais que moram os dois habitantes mais afastados daquela estrela, cuja amplitude do disco não pode ser medida pelos nossos instrumentos? Porque me haveria eu de sentir só? Não está o nosso planeta na Via Láctea? A pergunta que me fazeis não me parece a mais importante. Que tipo de espaço é o que separa um homem dos seus semelhantes e o torna solitário? Descobri que nenhum movimento das pernas pode aproximar muito uma mente da outra. Preferimos viver perto de quê?»

«Nunca encontrei companhia que fosse tão companheira como a solidão. Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos no nosso quarto. Um homem enquanto pensa e trabalha está sempre sozinho, onde quer que esteja. Não se mede a solidão pelas milhas do espaço que distam um homem dos seus companheiros.»
Solidão
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

Página-a-página #45


«Com um pouco mais de deliberação na escolha dos seus objectivos, possivelmente todos os homens se tornariam em essência estudiosos e observadores, porque a natureza e o destino de cada um interessam sem dúvida de igual maneira a todos. Ao acumular bens para nós ou para os nossos descendentes, ao fundar uma família ou um estado, ou ainda ao alcançar a fama, somos mortais; mas ao lidarmos com a verdade somos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes.»
«Ler bem, isto é, ler livros verdadeiros com espírito verdadeiro, é um nobre exercício que põe à prova o leitor mais do que qualquer outro exercício tido em alta conta nos hábitos contemporâneos.»


Leitura
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Página-a-página #31



«A vida vivida apenas combina com o elemento selvagem. O mais vivo é o mais selvagem. Quando ainda não é dominado pelo homem, a vida selvagem refresca-o. Aquele que se esforça, sem descanso, para chegar mais longe, aquele que cresce mais depressa e faz exigências infinitas à vida, encontrará sempre uma terra nova ou selvagem rodeada de matéria bruta essencial à vida.»

A arte de caminhar
H. D. Thoreau

domingo, 5 de agosto de 2012

Página-a-página #24




«Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.»



Onde, e para que vivi
Cap. 2
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Página-a-página #23


«Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável vivê-la. Ser filósofo não é apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar alguns problemas da vida não só na teoria mas também na prática.
(...)
Digo que os estudantes não deviam encenar a vida, ou simplesmente estudá-la, enquanto a comunidade os sustenta nessa dispendiosa brincadeira, mas seriamente vivê-la do começo ao fim. Como poderiam os jovens aprender melhor a viver senão tentando a experiência da vida de uma vez por todas? Parece-me que isso lhes exercitaria a mente tanto como a matemática. Se eu quisesse, por exemplo, ensinar a um rapaz arte e ciências, não faria o que costumam fazer, isto é, mandá-lo para a escola, onde se professa e se pratica tudo menos a arte de viver, onde o rapaz vai observar o mundo através dum telescópio ou microscópio e nunca a olho nu; onde vai estudar química e não aprender como é feito o pão, ou mecânica e não saber como é obtida; onde vai descobrir novos satélites de Neptuno sem ver os grãos de poeira nos seus próprios olhos ou de que vagabundo ele mesmo é um satélite; onde vai ser devorado por monstros que enxameiam em seu redor enquanto contempla monstros numa gota de vinagre. Quem, ao fim de um mês, teria aprendido mais, o rapaz que fez a sua própria faca de bolso do minério que escavou e fundiu, lendo apenas o necessário para isso, ou o que frequentou aulas de metalurgia no instituto e nesse meio tempo recebeu do pai o presente dum canivete Rodgers? Qual dos dois correria mais o risco de cortar os dedos?»
Economia
Cap. 1
Walden ou a vida nos bosques
Henry David Thoreau