quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Histórias com história #14


Blind Spot (2015-). Uma mulher completamente tatuada é descoberta nua no meio de Times Square, Nova Iorque, sem ter a mínima ideia do que lhe aconteceu. As coisas ainda se tornam mais estranhas quando é descoberto o nome de um agente do FBI tatuado nas suas costas. Jane, o Agente Weller e o resto da equipe do FBI logo descobrem que cada marca em seu corpo é um crime a ser resolvido: uma jornada que poderá levar à verdadeira identidade de Jane. Esta é a premissa da série que apesar de ainda só ter uma temporada disponível, promete grandes emoções e têm ainda imensos mistérios por resolver. Aqui fica a dica para quem é adepto de séries de acção!

sábado, 19 de dezembro de 2015

Página-a-página #224

«No passado, quando era mais jovem, acreditara que conseguiria vir a ser qualquer coisa diferente de mim mesmo. Inclusivamente, pensara que poderia abrir um bar em Casablanca e conhecer Ingrid Bergman. Ou também, numa atitude mais realista - e deixando de lado se, de facto, era ou não mais realista -, acreditara que poderia levar uma vida mais proveitosa e mais de acordo com a minha própria personalidade. Chegara mesmo a treinar para me transformar interiormente com esse objectivo. Lera The Greening of America, vira três vezes Easy Rider. Mas, apesar de tudo isto, acabava sempre a regressar ao mesmo sítio, como um barco com o leme torcido. Era o "meu eu". O "meu eu" não ia a lado nenhum. O "meu eu" estava aqui, à espera de que eu regressasse.
Seria preciso chamar a isto desespero?
Não sabia. Talvez fosse desespero. Turguéniev talvez lhe chamasse desencanto. Dostoiévski, talvez inferno. Somerset Maugham talvez escolhesse chamar-lhe realidade. Mas, usassem o termo que usasse, este era eu.
Não conseguia imaginar o mundo da imortalidade. Talvez aí pudesse recuperar as coisas que havia perdido e criar um mundo novo. Talvez existisse lá alguém que me aplaudisse, me felicitasse. E talvez tivesse sorte e conseguisse ter uma vida mais proveitosa, mais de acordo com a minha personalidade. De qualquer forma, seria um outro eu, um eu que nada teria que ver comigo. O meu eu de agora tinha o meu próprio ego. Era um facto histórico, algo que ninguém conseguia alterar.»

O ímpiedoso país das maravilhas e o fim do mundo
Haruki Murakami

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Uma boa história nunca acaba #140


The dressmaker (2015). Drama. Depois de muitos anos de exílio, Myrtle Tilly regressa à pequena cidade onde nasceu, na Austrália, para cuidar da mãe idosa, que se encontra muito doente. Tilly tinha saído dali muito jovem, devido a falsas acusações de assassinato. Hoje ela é uma mulher sofisticada que aprendeu os segredos da alta-costura com Madeleine Vionnet, uma das mais famosas costureiras de Paris (França). Agora, recorrendo aos seus dotes artísticos, Tilly decide transformar a visão dos habitantes da cidade mostrando, às pessoas que tanto mal lhe fizeram, que a vingança é doce e sabe ainda melhor se for servida fria…Estreado no Festival de Cinema de Toronto, uma comédia em estilo “western” que se baseia no “best-seller” – e obra de estreia – da escritora australiana Rosalie Ham. Pessoalmente o que tenho a dizer sobre este filme é que na sala de cinema onde eu assisti houve imensas gargalhadas por parte dos espectadores e houve alturas onde a emoção falou mais alto e lágrimas rolaram sobre as faces... Eu acho que é um filme muito vompleto, com imagens de tirar o fôlego, cenas muito marcantes visualmente, actores de luxo e uma história que certamente ainda recordarei daqui por algum tempo. Sem dúvida que este blog aconselha!

domingo, 13 de dezembro de 2015

Página-a-página #223

«-Será por minha culpa que não consegues abrir o teu coração? - perguntou ela, um belo dia. - Eu não posso corresponder aos teus sentimentos, e talvez por isso te feches tanto...
Estávamos os dois, como acontecia muitas vezes, nas escadinhas que partiam do centro da Ponte Velha e iam dar à ilhota, entretidos a seguir com os olhos a corrente. A Lua pálida e fria, reduzida a uma pequena lasca, reflectia-se temerosa nas águas do Rio. (...)
Que estranho, pensei. As pessoas associam o coração ao calor. Mas não há relação nenhuma entre o coração e o calor do corpo.
-Não, não é bem assim -respondi-lhe. -Se não te abro o meu coração, é um problema exclusivamente meu. Tu não tens culpa. Acontece que eu não estou seguro dos meus sentimentos, daí que me sinta confuso.
-Nesse caso, nem sequer estás em condições de perceber muito bem o que é o coração?
-Nem sempre consigo compreendê-lo, é certo -admiti. -Há alturas em que só percebemos o que nos vai na alma muito depois, quando já é demasiado tarde. Na maioria dos casos, as pessoas têm de tomar decisões e vêm-se obrigadas a agir sem estar seguras dos seus sentimentos, e isso deixa-nos desorientados, a nós e aos outros.
-Como é que o coração pode ser uma coisa tão imperfeita? -atirou-me ela, sorrindo.
Tirei as mãos dos bolsos e contemplei-as à luz da Lua. Banhadas por aquela tonalidade leitosa, pareciam um par de estátuas desproporcionadas, em miniatura.
-Também é essa a minha opinião -declarei. -O coração é algo de muito imperfeito. Mas deixa vestígios, e nós podemos seguir esses vestígios, como se fossem pegadas na neve.
-E onde conduzem essas pegadas?
-A nós mesmos -respondi. -O coração é assim. Sem coração não chegas a lado nenhum.
Levantei a cabeça e olhei para cima. A Lua de inverno flutuava no céu da Cidade cercada pela alta Muralha, emitindo uma luz exageradamente brilhante, quase incongroente.
-Tu não tens culpa de nada -repeti, em jeito de consolação.»

O Impíedoso país das maravilhas e o fim do mundo
Haruki Murakami

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Wishlist de Natal

Olá a todos, espero que esteja tudo bem convosco. Hoje decidi trazer uma coisinha diferente aqui ao blog e é então a minha wishlist de livrinhos que eu gostaria de receber no Natal. Sei que provavelmente vou receber algum ou alguns deles porque já andei a rondar a árvore de natal e vi lá uns embrulhinhos da fnac portanto cheirou-me a livros ^^ São então...


O primeiro livrinho que vos mostro é de Carlos Ruiz Zafón, autor de A Sombra do Vento, que foi um dos livros que eu devorei completamente e portanto como eu li toda a triologia dos livros esquecidos, da qual esse faz parte, espero também vir a gostar desta Trilogia da Neblina. A editora é a Planeta e a edição é de 2015.


O segundo livrinho é então Toda a Luz que não podemos ver de Anthony Doerr publicado pela editora Presença. Este livro ganhou o prémio Pulitzer este ano e é já um dos best-sellers do ano, bastante aclamado pela imprensa. É também comparado ao livro A rapariga que roubava livros e portanto tenho bastante curiosidade acerca dele.

Também vencedor do prémio Pulitzer, desta vez em 2014 temos O Pintassilgo de uma autora que já me é familiar, Donna Tartt. Esta escritora publicou também A história secreta, também editado pela Presença, que é outro dos livros que eu devorei num abrir e fechar de olhos. Estou portanto bastante curiosa também em relação à seu mais aclamado e recente obra.


Em relação a este livrinho cujo autor, Afonso Cruz, também não deve ser nada estranho aqui no blog, trago-vos a sua mais recente obra, Flores, publicada pela editora Companhia das letras. Creio que este seja o autor português que mais li neste último ano pois iniciei-me na sua obra precisamente no natal do ano passado com a publicação do livro Para onde vão os guarda-chuvas e desde então que tenho lido bastante.



Claro que há muitos mais livros que me chamam a atenção e que eu adoraria ler como por exemplo As obras-primas de T.S. Spivet de Reif Larsen, cujo filme já saiu nos cinemas e que também já tem um post aqui no blog, Estamos todos completamente fora de nós, de Karen Joy, As flores de Lótus, o mais recente livro do jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, etc, etc, etc... Enunciei apenas os que considerei mais relevantes e relativamente recentes e que espero vir a receber, nem que seja pelo menos um... E vocês? Têm algum livrinho que gostariam de receber pelo natal? Contem-me tudo aqui nos comentários! Até à próxima!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Página-a-página #222

«(...)A maior parte das pessoas não consegue emendar os seus próprios defeitos. As tendências do ser humano, de uma forma geral, consolidam-se antes dos vinte e cinco, e depois disso, por mais que uma pessoa se esforce, dificilmente consegue mudar a sua profunda natureza. O problema vem da maneira como o mundo exterior reage às nossas tendências. Com a ajuda do uisque, dei por mim cada vez mais identificado com Rudin. Com as personagens dos romances de Dostoiévski é raro sentir essa empatia, ao contrário do que acontece com as de Turguéniev. Simpatizo com todas elas. Talvez por terem uma data de defeitos. E nós, os que temos os nossos defeitos, tendemos a identificarmo-nos com aqueles que têm tantos defeitos como nós. Verdade seja dita que os defeitos exemplificados pelas personagens de Dostoiévski, muitas vezes, não se afiguram como defeitos, e por isso sou incapaz de sentir por eles uma empatia total. No caso de Tolstói, já que estou a falar do assunto, os defeitos dos seus heróis revelam-se de tal forma desmensurados e transcedentais que eles tendem a tornar-se monumentos estáticos.»
O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo
Haruki Murakami

sábado, 5 de dezembro de 2015

Página-a-página #221

«Habituado que estou a trabalhar em qualquer lugar, sei do que falo quando digo que nem sempre é fácil encontrar um sofá cómodo onde valha a pena repousar o corpinho quando chega a hora de passar pelas brasas. Os sofás, na sua maioria, são comprados ao acaso, sem qualquer critério, revelando-se, até mesmo no caso dos mais luxuosos, uma autêntica decepção assim que a pessoa decide deitar-se em cima deles. Isto para dizer que poucos são os que valem realmente a pena. Não compreendo como é que, na hora de comprar um sofá, as pessoas podem dar-se ao luxo de ser tão pouco exigentes.
  Defendo a teoria -ainda que tal possa não passar de um preconceito da minha parte - de que a escolha de um sofá diz muito acerca do seu proprietário. Um sofá constitui, à sua maneira, um mundo compacto e inviolável. Isso, porém, é uma coisa que só aqueles que cresceram comodamente sentados num bom sofá podem entender. Acontece o mesmo aos que cresceram a ler bons livros ou a ouvir boa música. Funciona assim.»

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo
Haruki Murakami

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Um desafio por mês #37


Dezembro #25

Vagueio hoje por outras terras. O meu corpo percorre o que me é estranho. E eu estou desconfortável. Sou desconforto e só quero pôr um ponto final ao universo. Não gosto do incontrolável, do desconhecido. Não conheço sequer a minha pele, é fria, cheira a estranho. Não sou eu. Todo o espírito, porventura, ter-me-á abandonado? Ao estar aqui já não sei o que sou, se alguma vez o soube. Desejo voltar a contorcer-me sobre o meu corpo e entrar de volta no ventre de minha mãe, até ao infinito, porque impossível será morrer quem se negou ao nascer.

Repudio o sol que brilha lá fora, da luz se renasce dizem uns, e eu discordo pela brancura inoportuna que invade este meu quarto pela frincha da janela deixada irresponsavelmente aberta. Mas eu hoje só quero dormir, o sono impede-me de pensar, e esperar que acorde, de novo, envolta em líquido amniótico.
Alexandra Oliveira Villar