segunda-feira, 11 de maio de 2015
Histórias com história #9
Six feet under (2001-2005). Drama. Sete Palmos de Terra, como foi traduzida para Portugal, é uma série dramática que nos dá uma visão trágico-cómica da vida e da morte segundo a perspectiva de uma família americana disfuncional de Pasadena, que possui e dirige uma agência funerária. Em Los Angeles, o patriarca Nathaniel Fisher, proprietário da agência funerária "Fisher and Sons", é morto num acidente de carro na véspera de Natal. A tragédia atinge a família e Nate, o filho mais velho, que está de regresso a casa para umas curtas férias, vai ter não só de lidar com a morte repentina do pai, como com o autoritarismo da mãe, Ruth, que mantém um romance secreto com o seu cabeleireiro Hiram, e ainda com o irmão David, um homosexual não assumido, que superintende o negócio da família, e a sua irmã Claire, uma adolescente rebelde que recebe a má notícia depois de ter tomado drogas com o seu novo namorado Gabe. A única coisa boa na vida de Nate é Brenda, uma mulher apaixonada que ele conhece no avião. Só que a família de Brenda parece ser ainda mais louca que a de Nate... Estranha, densa, profunda e cruzada por uma dose interessante de humor negro, esta série, como diz o Washington Post, incita a uma devoção compulsiva. É uma série sobre a vida, apesar de tratar de morte, brilhantemente escrita e interpretada. Six Feet Under foi considerada a melhor série de televisão e recebeu por isso o Golden Globe de 2002. Este blog recomenda!
sábado, 9 de maio de 2015
Divulgando #30
Festa do Cinema chega (finalmente) a Portugal com bilhetes a 2,50 euros.
Sim, perceberam bem! Dia 11, 12 e 13 de Maio os bilhetes de cinema vão estar a esse preço! Se tinham algum filme em mente que gostassem de ir ver, esta é a altura ideal. Acho que é de aproveitar!
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Through the Wormhole (2010-) é uma série de documentários cujos episódios duram aproximadamente 60 minutos e em que são retratados diversos temas da ciência. Apresentados por Morgan Freeman, somos confrontados com as grandes questões que estão ainda em aberto bem como as hipóteses e teorias que lhes tentam responder. É sem dúvida uma óptima forma de divulgação científica quer para os que se sentem curiosos sobre certos assuntos, quer para aqueles que queiram ter uma visão geral do mundo. Aconselho! E já agora aqui fica o primeiro episódio da primeira temporada intitulado "Is there a creator?" que especula acerca da existência de Deus.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Página-a-página #196
«-É isso que eu não entendo. Aos olhos dele devo ser perfeitamente insignificante. Como é que se explica que se dê conta de que eu existo? Noboru Wataya é famoso, tem poder. Comparado com ele, não sou ninguém. Por que carga de água é que ele perde tempo e energia a odiar a minha insignificante pessoa?
Creta Kano abanou a cabeça.
-O ódio é como uma sombra negra que não pára de alastrar. Em muitos casos, nem a pessoa que o sente sabe de onde provém. É uma espada de dois gumes. Ao ferir a outra pessoa, ferimo-nos a nós mesmos. Quanto mais grave for a ferida que infligirmos, mais grave é a nossa. Pode chegar a ser fatal. Mas não é fácil livrarmo-nos dele. Peço-lhe por tudo, senhor Okada, tenha cuidado. O ódio é muito perigoso. E, uma vez arraigado no nosso coração, extirpá-lo é a coisa mais difícil do mundo.»
Creta Kano abanou a cabeça.
-O ódio é como uma sombra negra que não pára de alastrar. Em muitos casos, nem a pessoa que o sente sabe de onde provém. É uma espada de dois gumes. Ao ferir a outra pessoa, ferimo-nos a nós mesmos. Quanto mais grave for a ferida que infligirmos, mais grave é a nossa. Pode chegar a ser fatal. Mas não é fácil livrarmo-nos dele. Peço-lhe por tudo, senhor Okada, tenha cuidado. O ódio é muito perigoso. E, uma vez arraigado no nosso coração, extirpá-lo é a coisa mais difícil do mundo.»
Crónica do Pássaro de Corda
Haruki Murakami
segunda-feira, 4 de maio de 2015
domingo, 3 de maio de 2015
Página-a-página #195
«-Se os homens vivessem eternamente, sem nunca desaparecerem deste mundo, sem nunca envelhecerem nem perderem a saúde, acreditas que se davam ao trabalho de queimar os neurónios a pensar nisto e naquilo, como nós fazemos? Quero dizer, nós reflectimos sobre tudo e mais alguma coisa: filosofia, psicologia, lógica. Religião. Literatura. Acreditas realmente que se a morte não existisse, essas ideias e esses conceitos tão complicados não estariam condenados a desaparecer da face da Terra? (...) Quero dizer... o que eu penso é que as pessoas são obrigadas a reflectir sobre o significado da vida precisamente porque sabem que acabam por morrer um dia. Certo? Quem é que se daria ao trabalho de pensar a sério sobre o facto de estar vivo, se soubesse que continuaria a viver tranquilamente para sempre? Qual seria a necessidade? Ou então, mesmo que a necessidade de reflectir fosse real, o mais certo era as pessoas acabarem por dizer: "Tudo bem, ainda tenho muito tempo pela frente. Deixo isso para mais tarde." Mas as coisas, na realidade, não são assim. Temos obrigações de pensar neste instante, aqui e agora. Quem é que me diz que amanhã à tarde não vou morrer atropelada por um camião? E tu, senhor Pássaro de Corda, sabes lá se dentro de três dias não acabas morto no fundo de um poço? Estás a ver onde quero chegar? Ninguém sabe o que se vai passar. Por isso é que, dê lá por onde der, precisamos da morte. É o que nos faz seguir em frente. É assim que eu penso. Quanto mais viva e mais forte for a presença dessa realidade forte e viva a que chamamos morte, mais seremos obrigados a queimar os miolos a pensar nela.»
Crónica do Pássaro de Corda
Haruki Murakami
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Maio #18
Se um dia me
perguntares se sou gaivota eu não to negarei. Mas tu nunca o saberás. Nunca me
verás nos braços asas para voar, nunca terei corpo para planar sobre o vento. E
isso tu sabes e saberás. Mas se me perguntares se sou gaivota não to negarei.
Mas tu nunca o saberás. Talvez não me conheças. Não sabes em mim aquele brilho
marítimo que trago no olhar, nunca me olhaste profundamente nos meus olhos para
o saber. Não os sabes. Não os conheces. Não me conheces. Não sabes em mim o meu
coração pulsante, nunca te bateu no peito e incitou a voar. Não o conheces. Não
me conheces.
Esta é a mais
bela das trovas de amor que te posso dar. Dizer que não me conheces, que não me
sabes. Que todos os dias percorres o meu corpo inebriado pelo nosso calor sem
nunca me conheceres. Mas nunca te negarei se um dia me perguntares se sou
gaivota. Sou. Por dentro, por onde não me conheces. Por onde quero realmente
que me saibas.
Alexandra Oliveira Villar
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Página-a-página #194
«(...) O nascer do Sol na Mongólia é qualquer coisa de extraordinário. Num abrir e fechar de olhos, o horizonte transforma-se numa débil linha que emerge das trevas e se estende devagar, como se a mão de um gigante lá no alto estivesse, lentamente, a fazer subir o manto da noite à superfície da Terra. Era uma visão sublime, de uma grandiosidade, como já disse entes, que ultrapassava em muito os limites da minha consciência enquanto ser humano. Ao contemplar aquele espectáculo, tinha a sensação de que a minha própria vida se dissolvia pouco a pouco, até desaparecer no nada. Coisas banais, como as vicissitudes dos seres humanos, não tinham cabimento naquela dimensão. Desde tempos imemoriais, quando ainda não existia nenhuma forma de vida, o mesmo fenómeno repetira-se milhões, centenas de milhões de vezes. Atónito, fiquei ali, absorvido na contemplação do alvorecer, esquecido do dever militar.»
Crónica do Pássaro de Corda
Haruki Murakami
quarta-feira, 29 de abril de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
Página-a-página #193
«(...) Uma vez, andava ainda a estudar, perguntei-lhe qual a receita para todo aquele êxito. Isto porque em Ginza tinham aparecido locais parecidos com os seus, mas uns funcionavam bem e outros iam à falência, e eu não entendia por que razão. Em jeito de resposta, o meu tio estendeu as palmas de ambas as mãos e mostrou-mas. "É o meu magic touch", respondeu ele, com uma expressão séria. E mais não disse.
É possível que tivesse realmente um toque mágico. Mas o certo é que também possuía o dom de se saber rodear de excelentes colaboradores. Pagava salários elevados, tratava bem os seus empregados e eles, por seu turno, adoravam-nos e trabalhavam no duro. "Quando vês alguém que tem valor, deves investir nessa pessoa sem pensar duas vezes e dar-lhe uma oportunidade", disse-me ele um dia. "As coisas que podes comprar com dinheiro, o melhor é fazê-lo sem te pores a pensar demasiado no que ganhas e no que perdes. Trata mas é de guardar a tua energia para aquelas coisas que o dinheiro não pode comprar."»
É possível que tivesse realmente um toque mágico. Mas o certo é que também possuía o dom de se saber rodear de excelentes colaboradores. Pagava salários elevados, tratava bem os seus empregados e eles, por seu turno, adoravam-nos e trabalhavam no duro. "Quando vês alguém que tem valor, deves investir nessa pessoa sem pensar duas vezes e dar-lhe uma oportunidade", disse-me ele um dia. "As coisas que podes comprar com dinheiro, o melhor é fazê-lo sem te pores a pensar demasiado no que ganhas e no que perdes. Trata mas é de guardar a tua energia para aquelas coisas que o dinheiro não pode comprar."»
Crónica do Pássaro de Corda
Haruki Murakami
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.
Foi para ti que criei as rosas
Eugénio de Andrade
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