http://100happydays.com
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Página-a-página #105
«Também a memória não é compreensível à falta de uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relação entre o tempo da vida vivida e o tempo da vida armazenada. Nunca se tentou calcular esta relação e não existe de resto qualquer meio técnico de o fazer; no entanto, sem correr grande risco de me enganar, posso supor que a memória não guarda mais que um milionésimo, um bilionésimo, em suma, uma parcela perfeitamente ínfima da vida vivida. Também isso faz parte da essência do homem. Se alguém pudesse reter na sua memória tudo o que viveu, se pudesse a qualquer momento evocar fosse que fragmento do seu passado fosse, nada teria a ver com os humanos: nem os seus amores, nem as suas amizades, nem as suas cóleras, nem a sua faculdade de perdoar ou de se vingar se assemelhariam aos nossos.»
A ignorância
Milan Kundera
Página-a-página #104
«A vida do homem dura em média oitenta anos. É contando com esta duração que cada um imagina e organiza a sua vida. O que acabo de dizer é uma coisa que toda a gente sabe, mas raramente nos damos conta de que o número de anos que nos é atribuído não é um simples dado quantitativo, uma característica exterior (como o comprimento do nariz ou a cor dos olhos), mas faz parte da própria definição do homem. Alguém que pudesse viver, com toda a sua força, duas vezes mais tempo, portanto, digamos, cento e sessenta anos, não pertenceria à mesma espécie que nós. Já nada seria semelhante na sua vida, nem o amor, nem as ambições, nem os sentimentos, nem a nostalgia, nada. Se um emigrado, depois de vinte anos vividos no estrangeiro, regressasse ao país natal com cem anos de vida à sua frente, pouco experimentaria da emoção de um Grande Regresso, provavelmente para ele
isso nada teria de um regresso, não passando de mais de uma das voltas do longo percurso da sua existência.
Porque a própria noção de pátria, no sentido nobre e sentimental da palavra, liga-se à relativa brevidade da nossa vida, que nos proporciona muito pouco tempo para que nos apeguemos a outro país, a outros países, a outras línguas.»
A ignorância
Milan Kundera
domingo, 9 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Uma boa história nunca acaba #73
Jane Eyre (2011). Drama. Romance. Inspirado no livro de Charlotte Bronte, este filme é um clássico. Retrata a vida de Jane Eyre, desde a sua infância até ao momento em que se apaixona por Mr. Rochester. A personagem tem uma personalidade muito vincada desde o inicio e penso que isso seja o mais interessante do filme. Sempre fiel a si mesma, Jane tem que lidar com toda uma trama que se desenvolve em torno dela. É sem dúvida uma personagem forte que não será esquecida pelos amantes de romances históricos. Este blog aconselha!
Página-a-página #103
«Quanto mais vasto é o tempo que deixámos para trás de nós, mais irresistível a voz que nos convida ao regresso. Esta proposição tem o ar de uma evidência, e no entanto é falsa. O homem envelhece, o fim aproxima-se, cada momento torna-se cada vez mais querido e já não há tempo a perder com recordações. É preciso compreender-se o paradoxo pragmático da nostalgia: o tempo do seu poder maior é a primeira juventude, quando o volume da vida passada é perfeitamente insignificante.»
A ignorância
Milan Kundera
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Página-a-página #102
«O grande mistério de que fazemos parte não tem de ser, necessariamente, uma resposta física ou material. Talvez sejamos também espíritos imortais e isso constitua o próprio âmago da nossa individualidade. O resto - as estrelas e os dinossauros - é apenas detritos exteriores. Nem um sol sabe mais que um sapo, nem uma galáxia sabe mais que um piolho. Brilham apenas pelo tempo que lhes está destinado.
Sempre fizeste questão de me recordar que os nossos corpos são parentes de répteis e sapos. Mas, apesar da relação genética entre os primeiros vertebrados e o Homo sapiens, um ser humano é essencialmente diferente de um sapo. Podemos pôr-nos diante de um espelho e olhar para os nossos próprios olhos e os olhos são espelhos da alma. E, por conseguinte, somos testemunhas do nosso próprio enigma. Um sábio indiano definiu-o assim: Ateísmo é não acreditar na grandeza da própria alma.»
Sempre fizeste questão de me recordar que os nossos corpos são parentes de répteis e sapos. Mas, apesar da relação genética entre os primeiros vertebrados e o Homo sapiens, um ser humano é essencialmente diferente de um sapo. Podemos pôr-nos diante de um espelho e olhar para os nossos próprios olhos e os olhos são espelhos da alma. E, por conseguinte, somos testemunhas do nosso próprio enigma. Um sábio indiano definiu-o assim: Ateísmo é não acreditar na grandeza da própria alma.»
O castelo dos Pirenéus
Jostein Gaarder
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Fevereiro #3
Mudemos de assunto, meu amor! Sabes que não me é
fácil falar. Dói-me pensar nos génios inovadores desta Lusitânia que por pânico
ao clássico inventam falsos portugais. Não sou velho do Restelo, bem sabes
disso. Mas tenho medo de algumas partidas. Principalmente as que não têm
retorno. Soubesse o rei Sebastião que não voltava talvez nunca tivesse partido.
Temo hoje pela língua portuguesa!
Essa língua que foi cantada, romanceada,
proclamada e enamorada. Poetas, escritores e trovadores. Homens, mulheres e
amantes. A mesma que de a ler nos enche o peito de mar e lezíria. Que nos
saboreia os lábios ao pôr do sol atlântico. Temo que lhe mudem a identidade e
que passe eu a falar com outra alma. Temo que venham a não me entender. Não foi
a diáspora suficiente para vencer a tua morte, triste língua!
Choro a leviandade da não sapiência e o orgulho do
erro. Choro o teu próprio fado. Choro os teus filhos. Fere-me, mais que os
olhos, a alma como te escrevem. Pena o teu povo dar-te de beber água salgada!
Triste língua, triste povo!
Alexandra Oliveira Villar
Subscrever:
Mensagens (Atom)

