quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Página-a-página #235

«(...) É a maior tragédia, com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. Temos de nos conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas e barrigudos -não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas, nem louvores. Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmos e avidez, não nos mudam nem a experiência, nem a compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é o mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.»
As velas ardem até ao fim
Sándor Márai 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Uma boa história nunca acaba #145


Mau Mau Maria (2014). Comédia. Drama. Romance. Os irmãos Pedro, António e João deparam-se com o maior desafio das suas vidas. Faustino Maria, o pai, decidiu que apenas lhes será atribuída a herança se, no prazo de sete semanas, encontrarem uma mulher com quem possam constituir família. Para o acordo ser validado, elas terão de ser bem-intencionadas, desinteressadas e, acima de tudo, boas companheiras. Pedro Maria, incapaz de conter o desespero, descobre na sua melhor amiga a aliada perfeita para encontrar a moça adequada; António Maria, o mais confiante e sedutor da família, dá início a uma verdadeira demanda para encontrar o seu par; João Maria, o mais inconsequente dos três, acaba por inesperadamente dar de caras com uma mulher que, muito possivelmente, será a solução do problema de todos. Com o relógio a contar as horas e com os dias e as semanas a passarem velozmente, cada um terá de encontrar a pessoa perfeita para que, juntos, consigam satisfazer o mais profundo desejo do progenitor: ver todos os filhos felizes e bem acompanhados na vida... Desta vez trago para aqui para o blog mais um filme português, não por achar que é um filme espectacular mas precisamente por ser um filme português, e que por isso merece destaque. Com esta chuvinha de Carnaval pode ser uma boa alternativa para uma tarde de cinema. Fica a sugestão!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Página-a-página #234

«-Era bom saber - continua, como se discutisse consigo próprio -, se existe amizade realmente? Não me refiro àquele prazer ocasional que faz com que duas pessoas fiquem contentes porque se encontraram, porque um determinado período das suas vidas pensavam da mesma maneira sobrecartas questões, porque os seus gostos são semelhantes e os seus passatempos iguais. Nada disso é amizade. às vezes, chego a pensar que essa é a relação mais forte na vida... talvez por isso seja tão rara. E o que há no seu fundo? Simpatia? É uma palavra imprópria, sem sentido, o seu conteúdo não pode ser suficientemente forte para que duas pessoas intervenham em defesa um do outro nas situações mais críticas da vida... apenas por simpatia? Talvez seja outra coisa?... Talvez exista uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas? 
(...) O Eros da amizade não precisa do corpo... longe disso, incomoda mais do que o excita. Porém não deixa de ser Eros. Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas.»
As velas ardem até ao fim
Sándor Márai

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Página-a-página #233

«Levei o senhor Ulme a passear. Estava a chover, abri um guarda-chuva e prendi-o na cadeira de rodas, abri outro para mim. Recordei o que ele costumava dizer dos guarda-chuvas:
"Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objecto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objecto bondoso, que não magoa ninguém."
Não há muita coisa assim. »
Flores
Afonso Cruz

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fevereiro #27

Hoje não é o dia. A cidade não acordou virada para o mar. As gaivotas não acordaram as areias da praia. E o vento tristemente não baila nas árvores. Hoje a cidade acordou num impulso matutino, abeirou-se da varanda, ia abrir os pulmões à luz do novo dia mas as ruas estavam diferentes. A luz que se queria entranhar pelo seu corpo não era a luz branca que percorreu calçadas e ruelas na história deste povo. Não se ouvia o pulsar dos coraçoes num novo dia que começa. A cidade tinha-se transfigurado. Era já outra coisa em que não se reconhecia. Fechou os olhos, susteu a respiraçao e voltou a fechar-se em casa. A cidade queria manter a própria cidade que desde sempre conheceu no coraçao, e não impregnar desta nova substância. Ela era pura e via-se em estado contaminado fora da janela. Cada cidade tem o seu lugar neste mundo, esse contexto pertence-lhe e será sempre o único a dar-lhe existência. Uma cidade noutro lugar nunca será cidade, ou melhor, será uma cidade sem alma. Hoje não é o dia. Mas amanhã pode já nem sequer haver luz. E quem diz cidade, diz o homem.

Alexandra Oliveira Villar

domingo, 31 de janeiro de 2016

Document Your Life: January 2016


Olá a todos. Estamos no fim do mês de Janeiro e como tal hoje trago-vos o meu vídeo do projecto Document Your Life do qual já vos falei aqui no blog. Este projecto é uma resolução de ano novo minha e como tal espero que pelo menos consiga gravar os doze vídeos correspondentes a este ano de 2016. E vocês? Não querem também participar? Não é preciso ser um expert na matéria nem fazer vídeos de alta qualidade. Basta divertirem-se a gravar os melhores momentos de cada mês. Fica aqui a sugestão!

sábado, 30 de janeiro de 2016

Página-a-página #232

«-Explique-me, então, a vida, senhor Helveg.
-Um rio, Kevin, está ao mesmo tempo na nascente e na foz. A vida também é assim, mas nós imaginamos que é um barco a descer o rio, um humilde pescador que por vezes tenta remar contra a corrente, mas é impossível vencê-la. Porém, nós somos o rio, que imagem tão gasta, Kevin, mas deve ser isso que somos. Ao mesmo tempo na nascente e na foz, moribundos e nascituros ao mesmo tempo, no útero e enterrados ao mesmo tempo, e no entanto sempre diferentes de nós mesmos, porque a água é sempre outra, a nascente está sempre a mudar, o nosso passado também, o nosso destino também, somos esta imagem tão gasta pelos poetas, pelos cantores, é isso mesmo, Kevin, uma alegoria velha, somos o tal rio, o tal lugar-comum. E agora, se não te importas, deixa-me remar contra a corrente, ainda que seja absolutamente inútil, mas que importa? Muitos dos nossos gestos mais épicos são tentativas infantis e vãs de contrariar o deprimente fado que Deus assobia e que é a nossa vida. Se não te importas, deixa-me remar contra a corrente.»
Flores
Afonso Cruz

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Página-a-página #231

«Talvez haja uma corda pendurada em todos os pescoços, talvez caminhemos sobre vidros partidos, talvez a nossa alma seja uma lâmpada fundida, talvez o futuro seja uma flor deitada num caixão, talvez as nossas ambições sejam programas de televisão coloridos, talvez nos doam as esperanças, talvez nos deitemos todas as noites como o entrecosto nas montras do talho, talvez nos falte a saliva nas palavras, talvez nos caiam os dentes podres para dentro da voz, talvez nos rasguem os ossos como papel, talvez a chuva só exista dentro do nosso corpo, talvez... E, porém, iluminamos o mundo. Existe um caos, uma escuridão, mas o mundo, o mundo só existe quando apontamos uma chama na sua direcção e o incendiamos. »
Flores
Afonso Cruz

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Uma boa história nunca acaba #144


The little Prince (2015). Animação. Fantasia. Uma menina vive com a sua mãe, uma mulher de tal modo obcecada com o futuro da filha que tem tudo delineado para cada hora da vida da criança. Os testes de admissão para um colégio muito conceituado são a grande preocupação do momento e nada, nem ninguém, parece demovê-la dos planos. Para ela, nada pode ser deixado ao acaso. Um certo dia, a rapariga conhece o vizinho da casa do lado, que lhe envia um desenho num pequeno avião de papel. Esse homem, que em tempos fora aviador, conta-lhe histórias das suas viagens e de como conheceu, em pleno deserto, um principezinho louro que lhe disse viver no asteróide B612. Com este novo amigo, a menina vai conhecer uma história de amizade que a mudará para sempre. Baseado no clássico de Antoine de Saint-Exupéry, este filme mantém a sua essência mas acrescenta personagens que, na minha opinião, foram a história ainda mais encantadora. É sem dúvida um filme que aconselho a todos independentemente da idade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Página-a-página #230

«-Já estou melhor.
Mas não estava, há anos que ficava cada vez pior, a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inviabilidade dos nossos erros. Trrrrim, trrrrim, morreremos em breve, temos de agir, de resistir. Não desistiremos. A solução seria termos uma caveira na mesinha-de-cabeceira, como fazem os monges cartuxos, para nos servir de despertador e todos os dias sabermos que temos de acordar, não para viver a rotina fatal do quotidiano, mas a vida apaixonada de alguém que ainda sabe que existem nuvens, céu e beijos.»
Flores
Afonso Cruz

sábado, 23 de janeiro de 2016

Página-a-página #229

«Nos últimos tempos, quando sinto os lábios da Clarisse a tocarem os meus, comprovo que não têm história, já não convocam o primeiro beijo que demos. Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem ás vacinas que tínhamos de dar à cadela (já morreu), às conversas com o director da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no tecto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabem-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijado-nos como quem faz a cama. »
Flores
Afonso Cruz