segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
« O Homem de Vitrúvio! », exclamou Langdon. O conservador Sauniére criara com o seu corpo um réplica em tamanho natural do mais célebre desenho de Leonardo Da Vinci. Á volta tinha descrito um circulo. No seu próprio estômago, desenhara a sangue uma estrela de cinco pontas.
(...) Leonardo seguiu as indicações do arquitecto romano Marcus Vitruvius Pollio, conhecido como Vitrúvio. Na sua obra 'Os Dez livros de Arquitectura', descreve as proporções ideais entre as diversas partes do corpo humano.
«O pé é a sexta parte da altura do corpo e o cotovelo a quarta parte»
domingo, 5 de janeiro de 2014
Página-a-página #78
«Os pássaros dos poemas
voam mais alto.
-Está aqui a máquina de fazer milagres - disse o pai de Badini, apontando para a máquina coberta pela toalha.
(...) Salam-ud-din pensou que talvez o homem tivesse feito aquilo com algum sentido alegórico: colocar comida, aquilo que nos é essencial, por cima da máquina de fazer milagres. Sem pão não se fazem maravilhas. Só quando o pão se torna um bem adquirido, o homem começa a pensar no que é belo. O estômago incha e a poesia nasce do umbigo.
75. Disse o profeta: se tiver dois pães, troco um por uma flor.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Página-a-página #77
«57. Quanto menor é a alma de um homem mais espaço ela ocupa. Não há espaço para ninguém ao seu lado.
Ninguém se senta ao lado do mulá ou de Vassilyevitch Krupin sem se sentir apertado.
-Tens de dar uma cereja ao teu primo para ele voltar a falar - disse o general.
-Com a graça de Alá, ele fala - respondeu Elahi.
-Sim, mas só com as mãos.
-As mãos é que fazem coisas, não é a voz, pelo menos eu acho que não é a voz, não posso ter a certeza, que certezas só Alá é que tem. Quando é preciso descascar uma banana, usamos as mãos e não o som, não serve para nada o som. Não é assim, general Krupin? Não me olhe assim, estou a ser sincero, desculpe. O meu querido primo, gosto dele como meu irmão, em tudo o que faz está a falar, pois todos os seus gestos são palavras. Achha, não há diferença entre a voz e o acto, como acontece tão frequentemente por aí, basta olhar para aquele ministro, como é que se chama? Não me lembro, adiante, que alá os castigue, dizem que fazem e depois não fazem, ou pior, cometem desgraças, umas atrás das outras. O meu primo, que é para mim um irmão, talvez mais do que um irmão, eu nunca tive um irmão homem, não posso saber, mas adiante, quando o meu primo descasca uma fruta, não a descasca simplesmente, como nós fazemos, quando usa a faca está a falar com as maçãs e as mangas e os marmelos, porque as suas mãos são frases, são discursos.
O general Ilia Vassilyevitch Krupin fez um gesto de enfado e disse:
-Em todo o caso, devia comer uma cereja.
-Com licença, general, o meu primo, todos os anos visita a cerejeira de Tal Azizi, que árvore bonita, que milagre. Deita-se debaixo dela, mas diz que aquela árvore é como toda a religião: só nos impede de ver o céu.»
Ninguém se senta ao lado do mulá ou de Vassilyevitch Krupin sem se sentir apertado.
-Tens de dar uma cereja ao teu primo para ele voltar a falar - disse o general.
-Com a graça de Alá, ele fala - respondeu Elahi.
-Sim, mas só com as mãos.
-As mãos é que fazem coisas, não é a voz, pelo menos eu acho que não é a voz, não posso ter a certeza, que certezas só Alá é que tem. Quando é preciso descascar uma banana, usamos as mãos e não o som, não serve para nada o som. Não é assim, general Krupin? Não me olhe assim, estou a ser sincero, desculpe. O meu querido primo, gosto dele como meu irmão, em tudo o que faz está a falar, pois todos os seus gestos são palavras. Achha, não há diferença entre a voz e o acto, como acontece tão frequentemente por aí, basta olhar para aquele ministro, como é que se chama? Não me lembro, adiante, que alá os castigue, dizem que fazem e depois não fazem, ou pior, cometem desgraças, umas atrás das outras. O meu primo, que é para mim um irmão, talvez mais do que um irmão, eu nunca tive um irmão homem, não posso saber, mas adiante, quando o meu primo descasca uma fruta, não a descasca simplesmente, como nós fazemos, quando usa a faca está a falar com as maçãs e as mangas e os marmelos, porque as suas mãos são frases, são discursos.
O general Ilia Vassilyevitch Krupin fez um gesto de enfado e disse:
-Em todo o caso, devia comer uma cereja.
-Com licença, general, o meu primo, todos os anos visita a cerejeira de Tal Azizi, que árvore bonita, que milagre. Deita-se debaixo dela, mas diz que aquela árvore é como toda a religião: só nos impede de ver o céu.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
Uma boa história nunca acaba #69
«Tudo tem um propósito. Até as máquinas. Os relógios dizem as horas, os comboios transportam pessoas... Todos fazem o que devem fazer. É por isso que as máquinas quebradas me deixam triste. Não podem fazer o que devem. Talvez seja igual com as pessoas. Se perdes o teu propósito, é como se estivesses partida...»
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Página-a-página #76
«-Os telescópios - disse Elahi - não servem para aumentar as estrelas, mas para diminuir o ser humano. São máquinas de nos fazer pequenos.
-As estrelas somos nós, disse Fazal Elahi. Quando Alá nos observa, é como quando nós olhamos para o céu: o que Ele vê são luzes. Cada homem é uma vela a brilhar no escuro, disse Tal Azizi, é assim Ele consegue ler à noite.
-Que tolice, primo. As estrelas são coisas lá em cima.
O mudo não respondeu, mas inclinou a cabeça para a esquerda e sacudiu uma formiga da perna.
Fazal Elahi pensava no equilíbrio do mundo, que era uma equação extremamente desequilibrada, mas que, apesar disso, exigia uma espécie de harmonia. Se um homem fala, entra-lhe silêncio pela boca, e se conquistou alguma felicidade pode esperar grandes tragédias.
Fazal Elahi não erraria na sua premonição, o universo gosta de equilibrios completamente desequilibrados, é feito de opostos de mãos dadas, um homem enorme a segurar a mão de uma menina pequenina. E, no caso de Elahi, esse equilibrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado foi conseguido a prestações.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
Janeiro #2
Escuta-me... Sei que nem sempre
é fácil, mas escuta-me! É um velho que to pede. Ouve o peso da idade que
carrego na minha voz. Vamos jogar à verdade...
Abre os braços e sente a brisa!
Que sentes? A brisa. Exacto! Fecha os olhos e vê o infinito! Que vês? O
infinito. Correcto. Agora respira fundo, enche o coração de frescura e corre...
Não irei perguntar o que vês nem o que sentes, ainda estás na partida do
início. Calçaste as botas da vida, avança! Caminha e descobre! Vive!
Lembra-te: em cada brisa sentes
uma brisa e em cada infinito vês um infinito. Nada mais... Não disfarces a
liberdade de brisa ou o sonho de infinito. Respira fundo, enche o coração de
frescura e corre à procura dessa tua liberdade e do teu mais profundo sonho.
Encontra-os a eles próprios! Somente liberdade e sonho. Sonho e liberdade...
Sou velho. Nem sempre a minha
memória sabe do que fala. E por vezes tenho dúvidas de eu próprio saber do que
falo. Os cabelos brancos e as barbas longas carregam consigo também a amargura
de uma vida que prometeu ser melhor. Talvez não tenhas que ouvir nada do que te
digo, ou penso que digo. Mas eu necessito de o dizer. Para que mais não seja
redimir-me perante mim próprio de não ter respirado fundo, enchido o coração de
frescura e corrido!
Menina, ouve este velho que já
viveu os anos que por aí vêm...
Alexandra Oliveira Villar
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