sábado, 11 de janeiro de 2014
Página-a-página #83
«Os dias que compõem a nossa vida são gerados dentro de nós, disse Tal Azizi, como uma gravidez. Quando desejamos alguma coisa que está fora do presente, quando desejamos o futuro, isso faz nascer o embrião do dias seguinte. E esse dia, ó discípulo, vai crescendo dentro de nós, alimentado pelas recordações e pelo desejo de viver, e, passadas umas horas, o dia desponta, naturalmente. E o mesmo sucederá com todos os dias que nos farão velhos. Até, ó devoto, chegar a altura em que nós, gastos, sem desejo, nos esquecermos de desejar o futuro, e o dia seguinte morrerá dentro da nossa barriga.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Página-a-página #82
«Disse Tal Azizi: os nossos corpos têm veias para fora deles. Escuta, amado discípulo, essas veias ligam-se a lugares especiais, a pessoas de que gostamos. Um aparelho circulatório que não é ensinado nas aulas de anatomia, que não se aprende nas madrasas nem nas universidades. O nosso coração não bate cá dentro, bate na terra de que gostamos, ó discípulo, nos objectos que nos são especiais, nos peitos dos nossos familiares, em músicas que nos fazem chorar. Nunca ninguém nos ensinou onde estava realmente o coração, aquilo que ouvimos bater no peito é apenas um reflexo de todos os nossos corações, que batem em tantos lugares diferentes. As nossas noções de anatomia, amado Gardezi, estão todas erradas.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Uma boa história nunca acaba #70
«A verdade é que sei que não viajo através do tempo, de todo. Nem mesmo um dia. Só tento viver cada dia como se tivesse voltado deliberadamente a este dia para o desfrutar como se fosse o último dia da minha extraordinária e ordinária vida. Estamos todos a viajar juntos no tempo todos os dias das nossas vidas. Tudo o que podemos fazer é dar o nosso melhor para aproveitar esta extraordinária viagem.»
About time (2013). Drama. Fantasia. Romance. Aos 21 anos, Tim descobre que consegue viajar no tempo… Ele não pode mudar a história, mas consegue alterar o que aconteceu na sua própria vida. Decide então tornar o seu mundo um lugar melhor… arranjando uma namorada. Infelizmente, esse feito tornou-se mais complicado do que previa. Conforme a sua vida progride, Tim descobre que a sua habilidade única não o pode salvar das mágoas, amores e dissabores que afetam todas as famílias, em todo o lado. São grandes os limites para o que se consegue com as viagens no tempo, assim como os perigos. Este pode parecer mais um daqueles filmes de domingo à tarde mas na verdade é feito de bom humor, de realismo, apesar da ficção, e claro, de um bom romance. É mais um daqueles filmes que nos fazem dar valor à vida bem como às pequenas coisas do nosso quotidiano. Surpreendentemente muito bom!
Página-a-página #81
«Houve uns segundos, talvez no singular, em que a cara de uma criança olhou para a cara de um soldado: opostos, completamente opostos. Todo o universo parou nessa altura, meio criança, meio soldado. Depois ouviu-se uma arma e o fim do mundo aconteceu. O soldado ganhou a guerra contra uma criança, como aliás acontece quase sempre; as crianças perdem tudo, até a juventude. Perdem guerras, perdem inocência, perdem pureza, perdem o cheiro a bebé. O Mal venceu com todas as armas que tem e o Bem perdeu com todas as armas que não tem. Foi assim que Fazal Elahi viu o filho morrer. Com uma bala do destino, do acaso, mas também do injustificável, de duas cebolas e de uma astrologia pouco benevolente.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Página-a-página #80
«213. Faremos com que a coisa mais simples seja a mais complicada de fazer.
Badini disse que as coisas mortas vão com a água, naturalmente, seguem a corrente do rio, é isso que fazem os paus, as pedras, as folhas, os cadáveres, todos são empurrados para a foz, todos eles, enquanto os sábios e os salmões procuram a nascente, as causas das coisas, e, assim tudo o que contraria a corrente está vivo, e a educação também é isso, é ir contra tantas coisas, não nos deixarmos arrastar para não nos tornarmos um pau seco a boiar nas águas.
250. Os rios são mais longos se navegam contra a corrente.
-Mas, primo, não será um procedimento sábio dos mais sábios de todos, seguir a natureza das coisas em vez de forçar, não passar a vida em guerra com tudo o que nos rodeia? Deveria ser fácil, tudo deveria ser fácil, mas que sei eu?»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
Página-a-página #79
«-Como não falas, ouves mais. Isso é que faz a sabedoria. Os homens deviam ser mudos até certa altura e depois rebentavam. Seria uma coisa ensurdecedora. Um homem a explodir toda a sabedoria que havia acumulado durante uma vida.
(...)
543. Para que os homens dessem as mãos, Nós fizemos-lhes os braços; e eles usam-nos para bater. Para que os homens caminhassem, Nós demos-lhes as pernas e os pés; e eles usam-nos para pisar.»
Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
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